sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Ready - Made

Déjeuner sur l´herbe - Monet



"O Crime Perfeito" Jean Baudrillard


" Há um antepassado de toda essa fauna mediática das tecnologias do virtual, desse reality show perpétuo: é o ready - made. Aqueles que são arrancados da sua vida real para vir representar no seu psicodrama sidaico ou conjugal na televisão têm precisamente como antepassado o porta - garrafas de Duchamp, que este extraiu, do mesmo modo, do mundo real para lhe conferir algures, num campo que estamos ainda de acordo em designar por arte, uma hiper-realidade indefinível. Acting-out paradoxal, curto circuito instantâneo. O porta - garrafas retirado de seu contexto, da sua idéia e da sua função, torna-se mais real que o real (hiper-real) e mais arte que a arte (transestética da banalidade, da insignificância, da nulidade, onde se verifica hoje a forma pura e indiferente de arte).
Qualquer objeto, indivíduo ou situação é hoje um ready-made virtual, na medida em que de qualquer um pode ser dito aquilo que Duchamp afirma, no fundo, do porta - garrafas: ele existe, eu encontrei-o. È assim que cada um é convidado a apresentar-se tal como é e a representar a sua vida em direto no ecrã, do mesmo modo que o ready-made vem representar o seu próprio papel, em direto, no ecrâ do museu. Aliás,ambos se confundem na iniciativa de novos museus que se preocupam em conduzir as pessoas, já não para diante da pintura ­­– desafio bem sucedido, mas não suficientemente interativo, e demasiado “espetacular” – mas para dentro da pintura, por exemplo, da realidade virtual de Déjeuner sur l´herbe, a qual poderão desse modo fruir em tempo real e, eventualmente, interagir com ela e suas personagens.
O problema é idêntico com os reality-show: é preciso conduzir o telespectador, não para diante do ecrã, para o outro lado da informação. Fazê-lo sujeitar-se à mesma conversão que Duchamp ao seu porta-garrafas, transferindo-o tal como ele é para o outro lado da arte, criando assim uma ambigüidade definitiva entre a arte e o real.
Hoje, a arte já só é essa confusão paradoxal entre os dois, e a intoxicação estética daí resultante. Do mesmo modo, a informação já só é a confusão paradoxal do acontecimento e do meio, e a incerteza política que daí resulta. Foi deste modo que nos tornamos todos ready-made. Hipostasiados como o porta – garrafas, embalsamados na nossa identidade estéril, museificados vivos, como essas populações inteiras transfiguradas in situ por decreto estético ou cultural, “clonados” à nossa própria imagem pela Alta Definição, e votados por essa exata semelhança à estupefação mediática, tal como o ready – made é votado à estupefação estética. E assim como o acting-out de Duchamp abre para o grau zero, mais generalizado, da estética, onde qualquer dejeto desempenha a função de obra de arte, tendo como conseqüência que qualquer obra de arte desempenha a função dejeto, também esse acting-out mediático abre para uma virtualidade generalizada, que põe fim ao real pela sua promoção a todo o momento."

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